Ana Terra

Ana estava inquieta. No fundo ela bem sabia o que era, mas envergonhava-se dos seus sentimentos. Queria pensar noutra coisa, mas não conseguia. E o pior é que sentia os bicos dos seios (só o contato com o vestido dava-lhe arrepios) e o sexo como três focos ardentes. Sabia o que aquilo significava. Desde os seus quinze anos a vida não tinha mais segredos para ela. Muitas noites quando perdia o sono, ficava pensando em como seria a sensação de ser beijada, penetrada por um homem. Sabia que esses eram pensamentos indecentes que devia evitar. Mas sabia também que eles ficariam dentro de sua cabeça e de seu corpo, para sempre escondidos e secretos, pois nada nesse mundo a faria revelar a outra pessoa – nem à mãe, nem mesmo à imagem da Virgem ou a um padre no confessionário – as coisas que sentia e desejava. [...] Pensava nas cadelas em cio e tinha nojo de si mesma (Veríssimo, 2001: 96).

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Bláa lónið – Live Webcam – Inspired by Iceland

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Bomba nostálgica

Acabei de passar, digamos, por uma “bomba nostálgica”. Não sei explicar bem como funciona, mas ao comprar o DVD de Twelve Deadly Cyns da Cyndi Lauper, me senti transportado para o ano de 1999 quando eu era feliz e não sabia quando eu fazia 8a série e tinha ideais bem diferentes do de hoje. Achava que a vida ia ser fácil, que tudo ia se resolver. Naquela época, ouvia muito Cyndi Lauper, estava começando a descobrir essa “nova” cantora que usava cabelos coloridos, roupas extravagantes, brincos e colares fora do comum e cantava músicas bem diferentes do cenário musical daquela época. Os clipes do DVD me levaram aquele tempo onde eu passava as tardes em casa fazendo nada, assistindo TV ou mexendo em alguma coisa no computador, já que não podia conectar por causa da internet discada. Parece que eu “saboreava” a vida de uma forma diferente. Senão diferente, talvez autêntica. Sim, talvez eu era autêntico nos meus ideais, na forma como eu gostava de música e de programas de TV. O ápice dessa minha reflexão foi assistindo ao videoclipe de Sally’s Pigeons. Quase fui transportado, quase entrei num túnel no tempo. Aquela voz, aqueles arranjos musicais, aquele ritmo maravilhoso. Fechei os olhos e viajei até 1999. Porque hoje não sinto aquele gosto de vida como antes? Será que a porra do tempo estraga os prazeres da vida? Ou deixei de acreditar? Mas acreditar em que? Eu não sei. Não sei onde foi que perdi, em que momento deixei de ver essa vida boa com esses olhos. Perdi. Mas no dia em que eu souber onde está, tentarei resgatar isso. Enquanto não acontece, o DVD vai ficar tocando, tocando e tocando…

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Das vantagens de ser bobo

de Clarice Lispector,

O bobo, por não se ocupar com ambições, tem tempo para ver, ouvir e tocar o mundo. O bobo é capaz de ficar sentado quase sem se mexer por duas horas. Se perguntado por que não faz alguma coisa, responde: “Estou fazendo. Estou pensando.”

Ser bobo às vezes oferece um mundo de saída porque os espertos só se lembram de sair por meio da esperteza, e o bobo tem originalidade, espontaneamente lhe vem a idéia.

O bobo tem oportunidade de ver coisas que os espertos não vêem. Os espertos estão sempre tão atentos às espertezas alheias que se descontraem diante dos bobos, e estes os vêem como simples pessoas humanas. O bobo ganha utilidade e sabedoria para viver. O bobo nunca parece ter tido vez. No entanto, muitas vezes, o bobo é um Dostoievski.

Há desvantagem, obviamente. Uma boba, por exemplo, confiou na palavra de um desconhecido para a compra de um ar refrigerado de segunda mão: ele disse que o aparelho era novo, praticamente sem uso porque se mudara para a Gávea onde é fresco. Vai a boba e compra o aparelho sem vê-lo sequer. Resultado: não funciona. Chamado um técnico, a opinião deste era de que o aparelho estava tão estragado que o conserto seria caríssimo: mais valia comprar outro. Mas, em contrapartida, a vantagem de ser bobo é ter boa-fé, não desconfiar, e portanto estar tranqüilo. Enquanto o esperto não dorme à noite com medo de ser ludibriado. O esperto vence com úlcera no estômago. O bobo não percebe que venceu.

Aviso: não confundir bobos com burros. Desvantagem: pode receber uma punhalada de quem menos espera. É uma das tristezas que o bobo não prevê. César terminou dizendo a célebre frase: “Até tu, Brutus?”

Bobo não reclama. Em compensação, como exclama!

Os bobos, com todas as suas palhaçadas, devem estar todos no céu. Se Cristo tivesse sido esperto não teria morrido na cruz.

O bobo é sempre tão simpático que há espertos que se fazem passar por bobos. Ser bobo é uma criatividade e, como toda criação, é difícil. Por isso é que os espertos não conseguem passar por bobos. Os espertos ganham dos outros. Em compensação os bobos ganham a vida. Bem-aventurados os bobos porque sabem sem que ninguém desconfie. Aliás não se importam que saibam que eles sabem.

Há lugares que facilitam mais as pessoas serem bobas (não confundir bobo com burro, com tolo, com fútil). Minas Gerais, por exemplo, facilita ser bobo. Ah, quantos perdem por não nascer em Minas!

Bobo é Chagall, que põe vaca no espaço, voando por cima das casas. É quase impossível evitar excesso de amor que o bobo provoca. É que só o bobo é capaz de excesso de amor. E só o amor faz o bobo.

 

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Quando a gente vai se encontrar outra vez?

— Quando a gente vai se encontrar outra vez?

Ela olha fixamente para o asfalto antes de erguer os olhos e me fitar. Suas pupilas dançam, inquietas, tenho a impressão de que seus lábios estão trêmulos. Então ela me apresenta um enigma com o qual ainda hei de quebrar muito a cabeça. Pergunta:

— Quanto tempo você consegue esperar?

Que diabo de resposta eu podia dar, Georg? Talvez fosse uma armadilha. Se dissesse “dois ou três dias”, eu me mostraria impaciente demais. E se respondesse “a vida inteira” ela poderia

pensar que eu não a amava tanto assim ou talvez que não fosse sincero. De modo que era preciso encontrar uma resposta intermediária. Eu disse:

— Agüento esperar até que o meu coração comece a sangrar de aflição.

Ela sorriu, insegura. Então roçou o dedo em meus lábios. E perguntou:

— E quanto tempo demora?

Desesperado sacudi a cabeça e resolvi dizer a verdade.
— Cinco minutos, talvez.

(A Garota das Laranjas)

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Aquele ar

Aquele ar cintilava sobre mim como cristais de gelo ao meu redor. Não conseguia sentir nada, apenas raios congelados entrando no meu corpo como facas bem afiadas. E não doía. Era noite, mas não estava escuro. Ouvia o som de grunidos, mas ao mesmo tempo era como se fosse música, como se Giuseppe Verdi estivesse ali, tocando não sei onde perto de algum lugar. As cores eram verde, azul anil e um amarelo de sol de fim de tarde. Mágico, porém assustador. Mistura eclética de sons, cores e vida. Era tudo leve, não havia medo, dores, odores. Mas ao acordar, o efeito foi o contrário. Essa mágica se desfez como uma bruxaria bem feita. O peso da vida voltou às costas, as discrepâncias habituais voltaram a atuar em cena. O teatro havia começado, ou havia continuado de onde parou.

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