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Filme Jumpin’ Jack Flash

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Jumpin’ Jack Flash (lançado no Brasil como Salve-me Quem Puder) é, à primeira vista, um daqueles filmes que definem a estética e o espírito dos anos 80. No entanto, mais do que uma obra de entretenimento leve, o longa de 1986 nos convida a uma reflexão sobre como as relações humanas se davam em uma era pré-digital. Lançado em um período de efervescência cultural e política, o filme foi pioneiro ao introduzir a comunicação online como o motor central de sua narrativa.

Whoopi Goldberg interpreta Terry Doolittle, uma funcionária de um banco em Nova York que utiliza computadores para gerenciar transações e comunicar-se com clientes globais. A rotina de Terry é quebrada quando ela recebe uma mensagem codificada de uma fonte desconhecida em seu terminal.

Ao decifrar o código, Terry se vê inadvertidamente arrastada para uma complexa trama de espionagem internacional. Enquanto lida com o desaparecimento e a morte de agentes, ela se torna o único elo de comunicação — e a única esperança de sobrevivência — de um espião britânico preso atrás da Cortina de Ferro.

Embora o filme possa ser analisado sob diversos prismas — desde a moda excêntrica até a atmosfera crua de uma Nova York pré-gentrificação —, o aspecto mais fascinante é, sem dúvida, o retrato tecnológico.

Assistir a Jumpin’ Jack Flash hoje é como visitar um museu de arqueologia digital. Somos transportados para a era do MS-DOS, onde a interação se dava puramente por texto e códigos ASCII, sem as interfaces gráficas que nos acostumamos a usar. O filme captura o "embrião" da internet doméstica e corporativa. O terminal de Terry, utilizado para trocar mensagens instantâneas com colegas, é um precursor direto dos sistemas de chat que viriam a dominar o mundo décadas depois. Se hoje a comunicação via WhatsApp e redes sociais é onipresente, naquela época, essa conectividade era uma novidade quase mágica.

Além dos computadores, o filme é um inventário de tecnologias obsoletas que evocam uma forte nostalgia: o uso de fitas cassete, a experiência de assistir a filmes clássicos em televisores de tubo e a dependência vital de telefones públicos. A cena em que Terry precisa desesperadamente de um "orelhão" para enviar uma mensagem ressoa de forma curiosa hoje: quando foi a última vez que esse objeto fez parte do nosso cotidiano?

Um momento particularmente emblemático ocorre quando Terry finalmente decifra a senha ("B-Flat" / Si-Bemol) para acessar um canal seguro. A tela do computador explode em gráficos coloridos e piscantes, simulando estrelas. Para quem viveu a informática dos anos 90, a cena remete imediatamente aos jogos de MS-DOS distribuídos em disquetes. Embora os gráficos sejam primitivos para os padrões atuais, na narrativa eles representavam o auge da sofisticação tecnológica.

Por fim, Jumpin’ Jack Flash oferece camadas que vão além da tecnologia. Poderíamos discorrer longamente sobre o subtexto político da Guerra Fria, a representação racial, etc. Contudo, esses são tópicos densos que merecem uma análise à parte. Por ora, fica o registro deste filme como um documento histórico divertido e revelador de um mundo que estava prestes a mudar para sempre.